O
caso descrito apresenta vários dos fatores relativos à organização do
trabalho considerados por Maslach et al. como determinantes do burnout -
sobrecarga, insegurança em relação às tarefas, falta de condições para
exercer o trabalho, insegurança quanto à permanência no emprego, falta
de suporte da equipe/chefia, sentimento de desmoralização pessoal no
ambiente de trabalho, sentimento
de injustiça. Os fatores pessoais de dedicação ao trabalho também estão
presentes. Os sintomas emocionais desenvolvidos pelo paciente
correspondem às três dimensões características da síndrome de burnout. O paciente apresenta também depressão. Embora apareçam associados com freqüência, vários estudos mostram que burnout e depressão são conceitualmente diferentes. Segundo Freudenberger, o "estado depressivo" presente no burnout seria
temporário e orientado para uma situação precisa na vida da pessoa (no
caso, o trabalho), além do que não estaria presente o sentimento de
culpa, característico da depressão; também para Maslach, o burnout afetaria somente o campo profissional, enquanto que a depressão atingiria todas as áreas da vida do indivíduo. Brenninkmeyer sistematiza essas diferenças. Comparados a indivíduos deprimidos, os que têm burnout:
1) aparentam mais vitalidade e são mais capazes de obter prazer nas
atividades; 2) raramente apresentam perda de peso, retardo psicomotor ou
ideação suicida; 3) têm sentimentos de culpa mais realistas, se os têm;
4) atribuem sua indecisão e inatividade à fadiga (e não à própria
doença); e 5) apresentam mais freqüentemente insônia inicial, em vez de
terminal (como na depressão). A natureza da associação burnout/depressão
ainda não é bem conhecida: pode se dever a antecedentes etiológicos
comuns (ligados ao estresse crônico ou a fatores de personalidade, como
traços neuróticos, por exemplo), podendo ser o burnout uma fase (ou um precursor) no desenvolvimento de um transtorno depressivo. Iacovides sugere que burnout e depressão poderiam compartilhar várias características "qualitativas", especialmente nas formas mais graves deburnout,
propondo que sejam aplicados os dois diagnósticos em certos casos, tais
como: aqueles em que haja maior grau de disfunção no trabalho do que de
sintomatologia depressiva, início da disfunção antes do início da
depressão maior ou a existência de uma atitude negativa em relação à
profissão que não pode ser explicada como uma manifestação da depressão.
A sobreposição, no caso apresentado, da síndrome de burnout com
depressão leva-nos a duas hipóteses: 1) a demora no reconhecimento do
problema poderia ter resultado no desenvolvimento de uma complicação (a
depressão); ou 2) tal caso pertenceria a um subtipo de pacientes com
maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de burnout e que estaria
associado com maior gravidade do quadro e semelhança fenotípica com
depressão (de acordo com o estudo de Iacovides)27. Ahola et al.8 sugerem que "ao lidar-se com população de trabalhadores, é recomendável aferir-se tanto a existência de burnout quanto de depressão".
Este caso é um exemplo de que o burnout parece
estar relacionado não a profissões específicas, e sim à maneira como se
organiza o trabalho, independente da atividade exercida18,28.
O determinante fundamental parece ser a impossibilidade encontrada por
pessoas profundamente empenhadas em atingir um ideal (aqui representado
pelo engajamento no trabalho) de realizar tal meta, impossibilidade esta
também determinada pelas características da organização do trabalho.
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